“......Mas, se ergues da justiça a clava forte,

Verás que um filho teu não foge à luta........”

Hino Nacional Brasileiro

Resenha por João Carlos de Andrade

Associação dos Expedicionários Campineiros

 

HOMENAGEM AOS BRASILEIROS QUE NÃO FUGIRAM À LUTA

Força Expedicionária Brasileira

 

“Se queres prever o futuro, estuda o passado”

Confúcio

 

Introdução

 

Por definição, História é um conjunto de fatos e conhecimentos relativos ao passado da humanidade e da sua evolução, segundo o lugar, a época e pontos de vista. Como sempre há diferentes opiniões e interpretações a respeito dos fatos ocorridos, é imprescindível que o narrador se baseie em fatos descritos por fontes fidedignas.

 

São várias as fontes de pesquisa (livros) sobre este assunto (ver: SearchWorks Catalog, em https://searchworks.stanford.edu/catalogq=%22Brazil.+Ex%C3%A9rcito.+For%C3%A7a+Expedicion%C3%A1ria+Brasileira%2C+1944-1945.%22&search_field=subject_terms da Stanford University - EUA), além de Teses de Doutorado e Dissertações de Mestrado, realizadas no Brasil e no Exterior.

 

No caso da História da FEB e da sua atuação durante a Segunda Guerra Mundial nada mais realista do que se ater aos fatos narrados pelos atores principais, no caso, pelos depoimentos dos oficiais e pracinhas que participaram efetivamente dos combates no teatro de operações da Itália. Assim, a narrativa abaixo teve como base textos retirados dos livros:

 

  1. Morais, B. et al., “Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB”, 3ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Editora Cobraci, 491 pp., 1949, e

  2. Costa H., “Confissões do Front – soldados do Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial”, Dourados, MS, Grupo Literário Arandu, 128 pp. Este e outro livro do mesmo autor, intitulado “Uma vez na Itália”, estão disponíveis para download em https://heltoncosta.wordpress.com/outras-obras/

 

Ao final serão fornecidas outras fontes de consulta, com diferentes pontos de vista, opiniões e interpretações. Recomendamos a leitura destes títulos aos que desejarem aprofundar pesquisas sobre este assunto e conhecer em mais detalhes os fatos ocorridos durante período turbulento da Segunda Guerra Mundial.

 

 

Preâmbulo

 

Para tentar entender como teve início a Segunda Guerra Mundial, é preciso voltar ao período da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) quando, devido a uma disputa local entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia, o herdeiro do trono Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, foi assassinado pelos sérvios.

 

Após quatro anos de lutas intensas e sangrentas, os impérios centrais sucumbiram pela guerra. As consequências deste conflito levariam, anos mais tarde, à Segunda Guerra Mundial, pela reorganização do continente europeu e pelas condições humilhantes a que a Alemanha foi exposta com a assinatura do Tratado de Versalhes, no final do conflito. Mas brechas no Tratado de Versalhes permitiram o ressurgimento do militarismo e de um agressivo nacionalismo na Alemanha.

 

O desemprego, crises econômicas e revanchismo foram uma combinação perfeita para o surgimento de um “salvador da pátria”. Surge aí a figura de Adolf Hitler (1889-1945), ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, bom orador e membro do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (em Alemão: Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - abreviado como NSDAP), mais conhecido como Partido Nazista ou Nazi, partido político de extrema-direita que esteve ativo na Alemanha entre 1920 e 1945.

Em 1923, Hitler tentou um golpe de Estado. Não tendo sucesso, foi preso e ficou detido por 13 meses. Neste período escreveu seu livro “Mein Kampf” (Minha Luta), no qual culpava os judeus pelos problemas alemães e defendia uma nação unida para o desenvolvimento de uma raça superior, a ariana. Na época a maioria da sociedade alemã aplaudiu e apoiou suas ideias, embora o partido nazista não tivesse muita aceitação até 1929, quando uma nova crise econômica fez o discurso de Hitler voltar a ser lembrado.

 

Em 1930, de 12 cadeiras ocupadas no Parlamento Alemão os nazistas saltaram para 107, o que fez Hitler se decidir a concorrer às eleições em 1932. Não tendo sido eleito, tentou o cargo de Chanceler junto ao presidente Paul von Hindenburg, sem sucesso. Entretanto, o Chanceler escolhido pelo presidente também tentou um golpe para tomar o poder, o que levou à dissolução do Parlamento.

 

Houve uma nova eleição e Hitler, empolgado, tentou novamente se eleger. Ele perdeu novamente, mas como havia apoiado o presidente na época do golpe, foi indicado como Chanceler, com o amplo apoio da classe operária, de industriais e dos conservadores, que viam nele um fantoche de seus interesses. Foi neste cenário que, em 1933, ele assumiu o poder na Alemanha.

 

Com a morte do presidente Paul von Hindenburg em 1934, Hitler assumiu o poder pleno do Executivo e começou a armar a Alemanha, mesmo sendo proibido pelo Tratado de Versalhes.

 

Em 1936, já preparado para um conflito, Hitler ocupou a região do Reno, uma região entre a Alemanha e a França. Depois anexou, em 1938, seu país de origem, a Áustria, e ainda retomou os “sudetos”, uma região alemã da Tchecoslováquia. Em 1939 ocupou a Polônia. Começava oficialmente a Segunda Guerra Mundial. De 1939 a 1942 a Alemanha, Itália e Japão, que tinham feito pactos de combaterem unidos (o Eixo), já dominavam quase toda a Europa, o extremo oriente e algumas partes da África.

 

 

O contexto dos fatos

 

Até o ano de 1941 a guerra estava do outro lado do oceano Atlântico, com a Alemanha e a Itália vencendo. Nessa época Getúlio Vargas era o presidente do Brasil que vivia a transição de uma nação agrária rumo à industrialização. Para isso o Brasil mantinha relações comerciais importantes tanto com a Alemanha quanto com os Estados Unidos, de modo que a neutralidade era um caminho cômodo para o Governo brasileiro da época.

 

Dentro dos bastidores políticos e dos quartéis que davam sustentação a Getúlio, havia aqueles que eram favoráveis a Hitler e aqueles que apoiavam os ingleses e os soviéticos, que tinham sido invadidos pelos alemães em junho de 1941.

 

Getúlio permaneceu neutro enquanto pode, mas por influência direta de seu Ministro de Relações Exteriores, Osvaldo Aranha, assinou tratados que previam solidariedade mútua em caso de ataque aos países das Américas.

 

Com o ataque dos japoneses a Pearl Harbor em 07 de dezembro de 1941 a neutralidade foi rompida e o Brasil não poderia mais ficar mais neutro. Foram meses de negociações e tensões políticas dentro da base do governo brasileiro. Alguns defendiam que o Brasil continuasse neutro, outros que o Brasil apoiasse os Estados Unidos (como era o caso de Osvaldo Aranha) e outros não assumiam, mas eram nitidamente favoráveis aos valores alemães.

 

O próprio Vargas em um discurso deu a entender que poderia apoiar a Alemanha, causando enorme reação dos americanos. Osvaldo Aranha agiu rápido e articulou tudo para que após a III Reunião de Consulta aos Ministros das Nações Americanas (que aconteceu no Rio de Janeiro na segunda quinzena de janeiro de 1942), o Brasil oficialmente rompesse relações diplomáticas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), como forma de solidariedade aos Estados Unidos. Era o dia 28 de janeiro de 1942.

 

Mas, assim que o Brasil foi oficialmente para o lado dos aliados, nada menos de 34 navios brasileiros foram atacados por submarinos alemães e italianos, sendo que 32 afundaram, causando a morte de 972 pessoas.

 

A população brasileira então saiu às ruas, forçando Vargas a tomar uma decisão. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália e no dia 31 daquele mesmo mês o rompimento foi oficializado.

 

Com isso Vargas conseguiu assegurar armamento para modernizar o Exército Brasileiro, recursos para a construção da Usina Siderúrgica em Volta Redonda/RJ e fez acordos comerciais com os americanos. Em contrapartida, o Brasil emprestaria bases militares no nordeste brasileiro aos norte-americanos, para apoiar os combates aos inimigos na África, então dominada pelos alemães e italianos. Além disso, o Brasil se comprometeu a enviar soldados para lutar na guerra, o que ficou decidido depois de um encontro em Natal (que servia de base aérea aliada) entre Getúlio Vargas e o presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt em 1943. Nascia aí a Força Expedicionária Brasileira (FEB).

 

 

O Brasil na II Guerra: a FEB

 

Pelos compromissos assumidos em Washington, o objetivo seria enviar um Corpo de Exército, com três divisões de infantaria, com um total de 100 mil soldados. Porém as condições das forças Armadas Brasileiras na época não permitiam tal luxo, uma vez que o Exército era obsoleto e sem a qualificação necessária para entrar em uma guerra “moderna”. E os dirigentes sabiam disso!

 

Logo, o tamanho da FEB teve que ser mais realista. Assim, em cinco escalões, o Brasil levou à Europa a primeira força latino-americana a se envolver diretamente nos combates da Segunda Guerra Mundial (em http://segundaguerra.net/a-feb-rumo-ao-campo-de-batalha/)

 

1º ESCALÃO DE EMBARQUE

Partida: 2 de julho de 1944

Chegada: 16 de julho de 1944.

Comandante: General Zenóbio da Costa.

Composição:

  • Escalão Avançado do Quartel General da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE);

  • Estado Maior da Infantaria Divisionária (ID) da 1ª DIE;

  • 6º Regimento de Infantaria (RI);

  • 4ª Cia. e 1º Pelotão de Morteiro do 11º RI;

  • II/1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados (ROAuR);

  • 1ª Cia. do 9º Batalhão de Engenharia (BE);

  • 1/3 das Seções de Suprimento e de Manutenção do 9º BE;

  • 1º Pelotão do Esquadrão de Reconhecimento;

  • Seção de Exploração e elementos da Seção de Comando da 1ª Cia. de Transmissões;

  • 1ª Cia. de Evacuação, o Pelotão Tratamento e elementos da Seção de Comando, todos do 1º Batalhão de Saúde;

  • Cia. de Manutenção;

  • Pelotão de Polícia Militar;

  • Um pelotão de viaturas,

  • Uma Seção do Pelotão de Serviços e elementos da Seção de Comando da 1ª Cia. de Intendência;

  • Elementos da FEB anexos à 1ª DIE: o Correio Regulador, o Depósito de Intendência, Pagadoria Fixa, correspondentes de guerra, elementos do Hospital Primário, Serviço de Justiça e Banco do Brasil.

Efetivo: 5.075 homens, contando com os 304 oficiais.

 

2º ESCALÃO DE EMBARQUE

Partida: 22 de setembro de 1944

Chegada: 06 de outubro de 1944

Comandante: General Oswaldo Cordeiro de Farias

Composição:

  • Artilharia Divisionária/1ª DIE (Estado-Maior e Bateria de Comando);

  • O 1º Regimento de Infantaria (RI);

  • I/2º Regimento de Obuses Auto-Rebocados (ROAuR);

  • 9º Batalhão de Engenharia (BE) (elementos do Destacamento de Comando, Cia. de Serviço e 2ª Cia.);

  • Grosso do 1° Esquadrão de Reconhecimento;

  • 1ª Companhia de Transmissões (Seção Extra, uma Seção Exploração e Seção de Construção);

  • 1º Batalhão de Saúde (elementos do Destacamento de Comando);

  • 1ª Companhia de Evacuação e elementos da Companhia de Tratamento;

  • Elementos da Cia. de Intendência;

  • Elementos de Depósito de Intendência;

  • Elementos dos Serviços Postal e Justiça;

  • Companhia do Quartel-General da 1ª DIE;

  • Grosso do Quartel General (QG) da 1ª DIE;

  • 2º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais Americanos;

  • 3º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais Americanos;

  • Correspondentes de guerra e elementos do Banco do Brasil.

Efetivo: 5.075 homens, contando com os 368 oficiais.


3º ESCALÃO DE EMBARQUE

Partida: 22 de setembro de 1944

Chegada: 06 de outubro de 1944

Comandante: General Olimpio Falconiere da Cunha

Composição:

  • 11º Regimento de Infantaria (RI);

  • I/1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados (ROAuR);

  • I/1º Regimento de Artilharia Pesada Curta (RAPC);

  • 9º Batalhão de Engenharia (BE) (Comando e Cia. de Serviço, Destacamento de Saúde e 3ª Cia.);

  • Esquadra de Ligação e Observação;

  • 1º Batalhão de Saúde (Destacamento de Comando, Pelotão de Tratamento e 3ª Cia. Evacuação);

  • Elementos da 1ª Cia. de Intendência;

  • Quartel-General da 1ª DIE e Cia. do QG;

  • Depósito de Intendência;

  • Banda de Música;

  • 1º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais Americanos;

  • Pelotão de Sepultamento.

Efetivo: 5.239 homens, contando com os 318 oficiais.

 

4º ESCALÃO DE EMBARQUE

Partida: 23 de novembro de 1944

Chegada: 07 de dezembro de 1944

Comandante: Coronel Mario Travassos

  • 1º Escalão do Depósito de Pessoal da FEB;

Efetivo: 4.691 homens – contando com os 285 oficiais.

 

5º ESCALÃO DE EMBARQUE

Partida: 08 de fevereiro de 1945

Chegada: 22 de fevereiro de 1945

Comandante: Tenente-Coronel Ibá Jobim Meireles

  • 2º Escalão do Depósito de Pessoal da FEB.

Efetivo: 5.082 homens – contando os 247 oficiais.

 

Os elementos avulsos, médicos e enfermeiras em particular, destinados aos Hospitais Estadunidenses, foram transportados em aviões (Rio – Natal – Dakar – Nápoles)

Efetivo: 111 – inclusive 67 enfermeiras.

 

De setembro a novembro de 1944, somente o 1º escalão esteve na linha de frente, do qual faziam parte os pracinhas de Campinas.

 

A instrução militar recebida pelo 1º escalão, enquanto sediado no 6º RI em Caçapava, se resumiu em executar os programas baseados em antigas rotinas onde, como sempre, faltavam meios para o preparo aprimorado da tropa que iria combater em território europeu. Mesmo com instrução claramente insuficiente, o 6º RI foi transferido para o Rio de Janeiro em março de 1944.

 

Mas não houve melhorias significativas nos programas de instrução. Segundo os Oficiais da FEB, uma das poucas coisas criadas para a instrução da tropa expedicionária que merece elogios foi o Centro de Instrução Especializada (CIE), escola organizada nos moldes americanos, para a formação de especialistas.

A FEB no campo de batalha

 

Uma vez embarcado no navio transporte americano General Mann, o 1º escalão da FEB teve instruções complementares, que há muito deveriam ter sido ministradas. Os “Pracinhas”, como eram chamados os soldados brasileiros, não sabiam qual destino iriam tomar. Foram mandados para a Itália, onde a situação era caótica e chegaram ao território italiano em um momento delicado.  

 

Em julho de 1943 os norte-americanos tinham tomado a Sicília dos alemães e em seguida Palermo, estabelecendo uma base para invadir o continente. No começo de 1.944 os norte-americanos, desembarcaram em Anzio, a 60 km de Roma, mas só chegariam propriamente a Roma em 04 de junho de 1944, após milhares de mortos dos dois lados. Os alemães expulsos da linha de defesa, que chamava Linha Gustav, se retiraram para o norte para montar uma nova linha de defesa, a Linha Gótica. A Linha Gótica começava na região de Viareggio (Versilia, como é chamado o litoral da região Toscana, onde o Brasil lutou a 1.220 metros de altitude), no litoral do Mar Tirreno e ia até Rimini, no litoral do Mar Adriático. Eram 320 km de defesas, rios e a cadeia de montanhas dos Apeninos.

 

Foi nessa altitude que os brasileiros tiveram de encarar os alemães. As tropas alemãs que enfrentaram o Brasil não eram tropas fracas ou inexperientes. Eram elas: a 42ª Divisão Ligeira - Jäeger, a 232ª Divisão de Infantaria, a 114ª Divisão de Infantaria, a 334ª Divisão de Infantaria, a 90ª Divisão Motorizada - Panzergrenadier, e a 205ª Divisão de Infantaria. Além dessas, os brasileiros tiveram pela frente tropas italianas, como a 1ª Divisão Alpina Monterosa, a 3ª Divisão de Infantaria Naval “San Marco” e a Divisão Itália. Boa parte dessas divisões havia lutado nas frentes da Rússia, África e de vários países da própria Europa, e estavam guerreando desde 1939.

 

Além disso, as estratégias planejadas pelo comando aliado, em relação ao mar Mediterrâneo, acabaram criando dificuldades para o 5º Exército norte-americano e o 8º Exército inglês, estacionados ao norte da Itália, próximos aos Apeninos. Os novos planejamentos enviavam duas divisões do 8º Exército inglês, para sufocar a guerra civil grega quase vencida pela esquerda, e cinco divisões que pertenciam ao 5º Exército norte-americano para fortalecer o desembarque na Normandia. Assim os efetivos aliados na Itália diminuíram de 249 mil para 153 mil homens. Para os aliados essa situação era grave, pois a ação ofensiva sobre os inimigos bem posicionados em alturas dominantes requeria um contingente maior para o combate.

 

Com dificuldade em manter as linhas já conquistadas, os aliados resolveram então empregar a tropa brasileira, recém-chegada à Itália (agosto de 1944) como tropa de primeira linha, embora fossem visíveis as dificuldades do grupo desembarcado. Assim, o 6º Regimento de Infantaria, o primeiro a pisar em território italiano, tomou contato com o inimigo. Combatendo ao lado dos norte-americanos, aprendeu a fazer uma guerra moderna na ofensiva contra a Linha Gótica, desalojando os alemães que ainda se encontravam ao norte (Bolonha).

 

Foram quatro as fases de operações desta marcha da FEB, feita com honra e bravura:

1ª fase: Camaiore – Monte Prano – Monte Valimona – Barga – Galicano e San Quirico;

2ª fase: tenaz defensiva de inverno nos Montes Belvedere, Castello – Vale de Marano –Torre de Nerone – Soprasasso – Riola;

3ª fase: a conquista de Monte Castelo – La Serra, alturas de Marano, Soprasasso e Castelnuovo de Vergato, e por fim a

4ª fase: jornadas de Montese, Zocca, Colecchio, Fornovo de Faro, com a rendição da 148ª Divisão Alemã.

 

Todas as missões recebidas pela FEB foram integralmente cumpridas. Os pracinhas superaram-se em tudo, surpreendendo até mesmo os mais otimistas. Espírito fértil, imaginação e improvisação, indiferente ao próprio sofrimento, com perfeita noção de honra e dever, o soldado brasileiro deixou traços marcantes da passagem pelo Teatro de Operações da Itália na Segunda Guerra Mundial.

Isso ficou registrado na História do 5º Exército Americano!

 

Vários integrantes da FEB foram condecorados pelo Exército Americano, conforme consta do “General Orders Number 97 – APO 464 – HEADQUARTERS FIFTH ARMY”, por ordem do Tenente General L.K.Truscott e assinada pelo Coronel M. F. Grant

VEJA A CÓPIA DESTE DOCUMENTO, COM TODAS AS CITAÇÕES, NA ÍNTEGRA

 

 

​CONDECORAÇÕES COM A MEDALHA SILVER STAR

Uma das mais importantes condecorações do Exército dos Estados Unidos, por bravura em ação contra o inimigo, extraordinário heroísmo e/ou serviços sob condições severas de combate. São eles:

 

ALBERTO JORGE FARAH, (1G-157109), Capitão, Infantaria.

JOÃO FILSON SOREN, (1G-237914), 1º Tenente, Corpo de Capelães.

ONOFRE RODRIGUES DE AGUIAR, (2G-96027), 2º Tenente, Infantaria.

IPORAN NUNES DE OLIVEIRA, (1G-185728), 2º Tenente, Infantaria.

CELSO DALVA VIEIRA REGUEIRA, (1G-175633), 2º Tenente, Infantaria.

RUBENS RESSTEL, (1G-62533), 2º Tenente, Artilharia.

MÁRIO MULLER, (5G-35519), 3º Sargento, Engenheiros.

JOSÉ EGÍDIO MENDES, (1G-294058), 2º Sargento, Infantaria.

PEDRO MAXIMINO MORETO, (2G-87492), 2º Sargento, Infantaria.

TEOBALDO PEREIRA, (3G-66676), Cabo, Infantaria.

HEITOR DA SILVA, (9G-293540), Cabo, Infantaria.

ALTAMIRO BOTOSSI, (2G-93153), Soldado, Infantaria.

ALTIVO ANTONIO EZIDORO, (1G-294427), Soldado, Infantaria.

STEFANO FELIPE, (1G-289980), Soldado, Infantaria.

ALFEU FERREIRA, (2G-109251), Soldado, Infantaria.

VICENTE GRATAGLIANO, (2G-99640), Soldado, Infantaria.

ANTONIO PALIOTO, (2G-92000), Soldado, Infantaria.

JAIR ANDRADE SILVA, (2G-111182), Soldado, Infantaria.

 

 

CONDECORAÇÕES COM A MEDALHA BRONZE STAR

Por atos de heroísmo em ação e/ou serviços meritórios em apoio às operações de combate.

 

OLÁVIO SOARES DO AMARAL, (1G-243501), Soldado, Infantaria - PÓSTUMA

GILBERTO J. F. PEIXOTO, (1G-108507), Tenente-Coronel. Corpo Médico.

ARCHIMINIO PEREIRA, (1G-1075), Tenente-Coronel, Infantaria.

JOÃO P. SILVA, (1G-296924), Tenente-Coronel, Corpo de Capelães.

LOURIVAL CAMPELO, (1G-75656), Major, Infantaria.

ARNALDO A. DA MATA, (1G-65070), Major, Corpo de Sinaleiros.

JOÃO CARLOS GROSS, (1G-64874), Major, Infantaria.

YEDDO JACOB BLAUTH, (1G-157003), Capitão, Infantaria.

PAULO DE CARVALHO, (1G-158728), Capitão, Infantaria.

VINCENTE DE PAULO DALE COUTINHO, Capitão, Artilharia de Campo.

JOÃO MANOEL DE FARIA FILHO, (4G-58645), Capitão, Infantaria.

RAUL DE CRUZ LIMA JR., (1G-156933), Capitão, Engenheiros.

OLEGÁRIO DE ABREU MEMORIA, (1G-146456), Capitão, Infantaria.

WOLGANGO TEIXEIRA DE MENDONÇA, (2G-75280), Capitão, Infantaria.

WALDYR MOREIRA SAMPAIO, (1G-146396), Capitão, Infantaria.

EVERALDO JOSÉ DA SILVA, (1G-156611), Capitão, Infantaria.

JAIR GARCIA DE FREITAS, (1G-153692), 1º Tenente, Corpo Médico.

NESTOR CORBINIANO DE ANDRADE, (3G-22396), 2º Tenente, Infantaria.

LÚCIO MARÇAL FERREIRA, (1G-143886), 2º Tenente, Infantaria.

ANTONIO DE ANDRADE POTY, (1G-231689), 2º Tenente, Infantaria.

IVALDO RIBEIRO DANTAS, (4G-22785), 1º Sargento, Infantaria.

FRANCISCO LUIZ ROBERTO BOENING, (1G-306987), 3º Sargento, Infantaria.

ABRAHÃO SILVEIRA DIAS, (3G-92306), 3º Sargento, Infantaria.

JOSÉ DARCY HEIDGER, (1G-292397), 3º Sargento, Infantaria.

SEBASTIÃO FAGUNDES MARANHÃO, (1G-289991), 3º Sargento, Infantaria.

RUI ESTRELA SALDANHA, (4G-66113), 3º Sargento, Infantaria.

JAIME SILVA, (1G-196568), 3º Sargento, Infantaria.

ODILON OLIVEIRA DE ALMEIDA, (1G-151678), Cabo, Artilharia.

MANOEL CHAGAS, (1G-305272), Cabo, Infantaria.

JOSÉ ESPERANÇA, (2G-96456), Cabo, Infantaria.

AFONSO CLEMENTE FERRAZ, (1G-290187), Soldado, infantaria.

JOSÉ NICODEMOS GOMIDES, (1G-291784), Soldado, infantaria.

JOSÉ TORQUATO LUIZ, (2G-108373), Soldado, infantaria.

MARINHO RODRIGUES, (9G-33943), Soldado, infantaria.

 

CONDECORAÇÃO COM A MEDALHA AIR MEDAL

Por mérito, ao realizar em voo, 35 observações de artilharia de campo do inimigo na Itália.

 

JORGE AUGUSTO VIDAL, (1G-163545), 1º Tenente, Artilharia de Campo.

 

O efetivo da FEB no Teatro de Operações na Itália foi de 25.394 homens na Itália. Depois de nove meses de lutas, os alemães se renderam incondicionalmente em 08 de maio de 1945. Em 239 dias de ação, a FEB fez mais de 20 mil prisioneiros (incluindo dois Generais e 892 Oficiais) e aprendeu, além das armas leves, 80 canhões, 5.000 viaturas e 4.000 cavalos. Mas estas vitórias custaram as vidas de 465 homens e de aproximadamente 2.700 feridos, acidentados e desaparecidos em combate.

O pós-guerra

 

Terminados os combates, a FEB trabalhou como tropa de ocupação. Relatos mais atuais do historiador Frank McCann, da Universidade de New Hampshire, revelam que o Brasil recusou gestões dos EUA para participar da ocupação aliada da Áustria após o fim da guerra. O general Mark Clark (comandante aliado na Itália) foi mandado para a Áustria como chefe de ocupação e, conhecendo bem os brasileiros, pensou que seria interessante tê-los nesta tarefa, mas não se sabe até que nível o governo brasileiro foi consultado.

 

Para os americanos seria bom utilizar os brasileiros. Na versão de McCann, o general Willis Crittenberger, comandante do 4º Corpo do 5º Exército dos EUA, do qual a FEB era parte, consultou, em 10 de maio de 1945, o então coronel Castello Branco (que em 1964, seria o primeiro presidente do regime militar) sobre a possibilidade de o Brasil participar da ocupação da Itália. “Castello disse algo sobre o Brasil não ter participado do conselho aliado para governar a Itália, e sendo assim que não deveria ter tropas envolvidas nestas funções”.

 

McCann menciona também que o diplomata Vasco Leitão da Cunha ouviu, em Roma, que o general britânico Harold Alexander teria dito: "O brasileiro é um belo soldado. Lamento saber que eles querem voltar para casa e não ir para a Áustria". Após ouvir isso, Leitão da Cunha, teria telegrafado para o Brasil e ouvido um “não”, porque o Brasil temia ter de pagar as despesas.

 

O fato é que os pracinhas iniciaram o retorno para o Brasil em 06 de julho de 1945, com o primeiro dos sete embarques. Coincidentemente, neste mesmo dia, por meio do Aviso Ministerial Número 217-185, Getúlio Vargas dissolveu a FEB.

 

A ordem dizia que, na medida em que as tropas chegassem ao Brasil, fossem excluídas da FEB, ficando automaticamente subordinadas ao Comando da 1ª Região Militar, até que seus superiores decidissem seu destino final. Os efetivos deveriam ser desmobilizados. Os conscritos (convocados pelo Exército quando já haviam dado baixas), os voluntários e o pessoal da Reserva foram mandados para casa. Os oficiais que ficaram no Exército foram espalhados pelo país. Outros oficiais da ativa foram passados para a Reserva, aposentados antes do tempo. Oficialmente o governo dizia não ter condições financeiras de manter tamanha tropa.

 

Este ato do governo Vargas não ficou sem resposta. Ainda a bordo do navio que trazia os pracinhas da Itália para o Brasil, ganhou vida a ideia da fundação de uma Associação de ex-combatentes da FEB. Em consequência, foi fundada em 28 de outubro de 1.945 a primeira delas, a Associação dos Expedicionários Campineiros.

 

Na verdade, a FEB criara uma situação incômoda a Getúlio Vargas: como continuar num regime político que fora inspirado nas ditaduras que acabavam de ser destruídas pela guerra? O povo, ao receber apoteoticamente os pracinhas, estava manifestando o seu desejo pela volta à democracia. Assim, os combatentes recém-chegados eram uma pedra no sapato do regime vigente e a dissolução precipitada da FEB pode ser tomada como um ato político, que se sobrepôs a qualquer outra consideração plausível.

 

Os expedicionários passaram por situações difíceis e constrangedoras nos pós-guerra. Os soldados rasos da FEB tiveram de se reintegrar à sociedade, mas para boa parte dos cidadãos comuns, os veteranos eram “neuróticos” e “encrenqueiros”. Ao voltarem para casa, os poucos mais de 25 mil integrantes da FEB diluíram-se entre a população de quarenta milhões de pessoas com quem não conseguiam compartilhar suas experiências de guerra. Colegas de trabalho, familiares e amigos tinham dificuldades de entender o drama e a selvageria vivenciada pelos jovens veteranos e, mesmo aqueles que haviam retornado fisicamente incólumes, estavam, em seu íntimo, transformados de maneira irrevogável. O júbilo inicial das festividades pelo retorno logo deu lugar à normalidade e à labuta cotidiana para a esmagadora maioria de expedicionários, que gradualmente retornavam as suas ocupações de antes da ida à Itália.

 

Para todos os veteranos, vencer os traumas deixados pela guerra não foi tarefa fácil. Mesmo assim, a maior parte prosseguiu integrada à sociedade, deixando a recordação da campanha para as ocasiões de reencontro com os companheiros. O contato com outros veteranos no convívio das associações, nas visitas particulares e nas amizades travadas desde a guerra ou formadas entre veteranos, que só se conheceram depois de 1945, certamente teve papel importante para depurar as recordações mais desagradáveis.

 

Contudo houve uma parcela de expedicionários mais profundamente traumatizada que sofreu maiores dificuldades para superar a brutalização imposta pela participação no combate. Apesar de uma legislação específica criada para garantir algum nível de assistência, mesmo que ínfimo, os veteranos brasileiros dependiam de boas relações com oficiais da ativa (cuja maioria passou longe da Wehrmacht durante a guerra, permanecendo, portanto, pouco sensível aos problemas dos expedicionários) e com autoridades governamentais, a fim de receber direitos que teoricamente deveriam estar garantidos.

 

Outra versão, do general Raul Lima, não é menos pessimista e tão real quanto a primeira, principalmente quando trata dos internados psiquiátricos que, segundo ele, “(...) foram devolvidos à vida comum, porém, em estado precário”. “O tratamento, incompleto, pouco adiantou. Voltaram para as ruas; ora empregados, ora desempregados; transformando-se em farrapos humanos, desmemoriados e perdidos, maltrapilhos, passando as noites ao relento e vivendo na mais negra miséria”.

 

Em 1950 os ex-combatentes foram às ruas protestar pela falta de assistência, o que foi usado pelos opositores do governo como motivo de críticas. Os jornais vez ou outra publicavam alguma coisa sobre a FEB ou sobre um de seus pracinhas. Leis para auxiliar feridos e incapazes logo começaram a vigorar, mas para beneficiar aqueles que não tinham rendimentos nem condições de trabalho, só mesmo a partir de 1963.

 

O colega italiano estudioso da FEB, Mário Pereira, guardião do Monumento Votivo de Pistóia, resumiu bem a história de heroísmo da Segunda Guerra Mundial. Para ele, heróis não foram somente aqueles que morreram em combate, mas também aqueles que conseguiram viver com dores, remorsos, medos, tristezas e lembranças de um tempo que haviam passado dispostos a morrer por um país que hoje sequer é capaz de reconhecê-los nos livros oficiais, que são adotados nas escolas públicas e particulares do Brasil.

 

 

O legado da FEB

 

O sofrimento e o sangue derramado nos campos de batalha, pelos “pracinhas”, soldados da FEB que lutaram contra o nazi-fascismo, resultou também em mudanças no Brasil. Mesmo extinta em 1945 por meio de um decreto presidencial, a FEB legou à Nação um assento na ONU. A FEB e seus feitos em solo europeu também contribuíram decisivamente para a queda da ditadura Vargas (Estado Novo) e para o início da industrialização maciça no eixo Rio-São Paulo, além da uma expansão das “fronteiras a oeste” do Brasil. E foi só o começo!

 

 

Referências e leituras sugeridas:

 

Livros:

 

Alguns dos vários livros disponíveis sobre o assunto em pauta são mencionados abaixo. Não deixe de ler também as referências citadas em cada um deles. Outros títulos serão adicionados futuramente.

 

C.C. Maximiano & R. Bonalume N.

Brazilian Expeditionary Force in World War II

Men-at-Arms  465

Disponível em: https://ospreypublishing.com/store/military-history/period-books/world-war-2?filterSeries=Men%20at%20Arms

João Barone

1942-O Brasil e sua guerra quase desconhecida

Editora Nova Fronteira Participações S.A., Rio de Janeiro/RJ, 2013

 

Cesar Campiani Maximiano

Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Editora Grua Livros, São Paulo/SP, 2010.

 

Helton Costa

Confissões do Front: Soldados do Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial.

Grupo Literário Arandu, Dourados/MS, 2012, 136 pp.

Disponível em: https://heltoncosta.wordpress.com/outras-obras/

 

Helton Costa

Uma vez na Itália,

Editado por Nicanor Coelho, Dourados/MS, 2008, 155pp.

Disponível em: https://heltoncosta.wordpress.com/outras-obras/

 

Joaquim Xavier da Silveira

A FEB por um Soldado, 1989; 353 pp.
Editora: Nova Fronteira

 

Analice Sauerbronn Reina

F.E.B. – Verás que um filho teu não foge à luta, 95 pp. (sem data)

Disponível em: http://solepro.com.br/Textos/Historia/FEB%20-%20Completo%20e%20Editado.pdf

 

Luís Carlos Luciano

Triunfo e glória de um guerreiro

Dourados/MS, 2013; 640 pp.

Disponível em: http://www.luiscarlosluciano.com.br/fotosnoticias/versao%20do%20livro%20a5%20em%20fonte%20chaparral%20revisado%206%20set%202016.pdf

 

Anderson dos Santos

O Brasil em Guerra: a FEB na Itália, 10 pp.

Disponível em: http://www.joinville.ifsc.edu.br/~anderson.santos/Hist%C3%B3ria%20IV/Textos/Texto%20-%20A%20FEB%20na%20It%C3%A1lia%201944-1945.pdf

 

Dennison de Oliveira, (Org).

A Força Expedicionária Brasileira e a Segunda Guerra Mundial - Estudos e Pesquisas, Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército, 2012, 112 pp.

Disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/portal/historia/files/2011/10/livro_final.pdf

 

Artigos

 

L.P. Macedo Carvalho

Consequências e reflexos da participação da FEB na II Guerra Mundial.

Military Review, Julho-Agosto 2005, p. 61-67.

Disponível em: http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/FEBMR.pdf

 

Sites

 

Abaixo estão indicados alguns dos inúmeros sites sobre o assunto “2ª Guerra Mundial e FEB”. Outros serão adicionados oportunamente.